Desde que o Brasil liberou o cultivo de
vegetais transgênicos, as plantações já
se espalharam por boa parte da área agricultável
do país. Estudos feitos nos Estados Unidos atestam
que produtos como milho, soja e algodão geneticamente
modificados não trazem risco para o meio ambiente.
Subitamente, porém, a Embrapa descobre que a fertilidade
de grande parte dos solos cultivados está caindo -
justamente onde estão as plantações transgênicas.
Chega-se à conclusão, tardia, de que as novas
proteínas produzidas pelos vegetais modificados alteraram
as bactérias que fixam nitrogênio no solo. É
uma catástrofe ambiental, que comprometerá gravemente
a produção agrícola no país. O
cenário acima não ocorreu, é apenas um
exercício de ficção. Mas é uma
ficção inteiramente verossímil, e mais
do que isso, muito provável de converter-se em realidade.
A polêmica estourou no mês de março, quando
o tema foi debatido publicamente em Brasília, na comissão
de defesa do consumidor da Câmara dos Deputados. Embora
ainda sub judice, a decisão do governo brasileiro é
de aprovar o cultivo de transgênicos que tenham sido
aprovados por estudos de impacto ambiental feitos nos Estados
Unidos.
Esta decisão é mais um capítulo do
festival de imprevidência e desconhecimento que cerca
o tema dos produtos transgênicos - não por
acaso, transformado em tabu. Um sintoma claro da superficialidade
com que o assunto é tratado é a situação
em que o professor Sílvio Valle, da Fiocruz, se viu
metido nos meios científico e político. Especialista
em biossegurança e uma das autoridades nacionais
no assunto, Valle tem encontrado cada vez mais interlocutores
que o questionam por ser "contra" os transgênicos,
e outros em mesmo número que rotulam-no como "a
favor" dos transgênicos. Uma das missões
a que o cientista se dedica atualmente é mostrar
que genética não é Fla-Flu e iluminar
o debate, antes que seja tarde. A futurologia sobre o esgotamento
dos solos brasileiros por um efeito genético, por
exemplo, já tem paralelos na realidade. Nos Estados
Unidos, o milho transgênico "BT" havia sido
aprovado pela rigorosa FDA (Food and Drug Administration),
após estudos que comprovavam sua eficiência
em provocar a morte da sua principal praga, uma lagarta
onipresente na região do "corn belt". Algum
tempo depois, porém, constatou-se que a população
das borboletas "monarca", na mesma região,
estava desaparecendo: o milho "BT" não
era letal só para a praga a que estava destinado.
O grau de risco se acentua com a transposição
de estudos de impacto ambiental feito nos EUA para o Brasil.
As diferenças do ambiente entre os dois países
podem gerar efeitos inteiramente novos do transgênico
sobre a natureza, alerta o professor Sílvio Valle.
Ele avisa que a discussão não comporta romantismo:
"A população brasileira vai consumir
transgênicos, não tenho dúvida disso".
Mas ele quer mostrar que a segurança, nesse caso,
será diretamente proporcional ao volume de pesquisa
científica que se conseguir produzir sobre o assunto
- e aí o placar ainda é totalmente favorável
à ignorância. Não é difícil
entender o grau de incerteza que cerca o tema. Modificar
geneticamente uma planta significa que ela produzirá
proteínas novas, desconhecidas anteriormente, e que
podem ou não ser tóxicas. Podem ou não
mudar o valor nutricional do alimento, causar alergias ou
mesmo doenças degenerativas. Valle não tem
nada de alarmista, mas neste ponto é franco: "Mesmo
depois de todos os testes feitos e da aprovação
dos produtos, é necessário que eles sejam
devidamente rotulados e se iniciar a fase de biovigilância.
Só com a população consumindo em massa
é que se poderá ter as convicções
sobre os seus efeitos." Se crianças consumidoras
de leite de soja, por exemplo, apresentarem alergias novas,
será fundamental saber se a soja era ou não
transgênica (o que hoje é impossível,
pois a soja transgênica que há no mercado é
clandestina).
Ou seja, a quantidade de variáveis na relação
entre os organismos modificados e o meio ambiente, os animais
e o homem dá aos seus eventuais impactos algo de
loteria. Em outras palavras, os primeiros consumidores de
transgênicos, de certa forma, serão sempre
cobaias. Mais grave, porém, é disseminar os
produtos no mercado sem possibilidades de segregá-los
e rastrear seus efeitos. Esse tempo já está
sendo perdido. O mal da vaca louca, por exemplo, é,
até onde se sabe, contraído de ração
animal, mas seria fundamental distinguir o gado que consumiu
ração transgênica para observar suas
reações e sintomas. Nos Estados Unidos, o
alarme soou quando detectou-se que estava havendo polinização
cruzada entre o milho transgênico e o convencional
- mostrando como a presença do organismo modificado
na natureza pode escapar inteiramente ao controle do homem.
Sívio Valle aponta o problema crucial e mais urgente
na produção de conhecimento sobre transgênicos:
a quase totalidade da pesquisa produzida até hoje
foi realizada pelas próprias empresas vendedoras
de produtos transgênicos. "Não há,
no mundo todo, financiamento público para pesquisa
científica sobre segurança alimentar de produtos
transgênicos", acusa Valle. A SBPC (Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência) defende a
taxação das empresas produtoras para financiar
os estudos. Para Valle, bastaria que o governo passasse
a exigir que as empresas, além dos testes sobre eficácia
de seus produtos (para atestar que ele resiste a determinado
agrotóxico, por exemplo), fossem obrigadas a fazer
o estudo completo - sobre impacto no meio ambiente e na
saúde.
Poderia ficar estabelecido então o seguinte: os
produtos geneticamente modificados não são
uma assombração, mas sua produção
e consumo precisa ser acompanhada cientificamente em regime
de pente-fino. O que é bom para o ambiente dos EUA
pode não ser bom para o brasileiro, o que mata praga
pode também matar borboleta, o que acontece com os
animais não serve para determinar o efeito no organismo
humano. Os alimentos já lançados passaram
por testes de carcinogênese em cobaias, mas o pouco
conhecimento sobre as novas proteínas produzidas
não autoriza a exclusão de qualquer hipótese
de efeito degenerativo. O professor Sílvio Valle
está mostrando, portanto, que é preciso estudar
exaustivamente cada circunstância de produção
e consumo dos transgênicos. Porque genética
não é Fla-Flu, mas é uma caixinha de
surpresas.