Ignorância Transgênica
Guilherme Fiuza (transcrito com permissão do autor)
 
Desde que o Brasil liberou o cultivo de vegetais transgênicos, as plantações já se espalharam por boa parte da área agricultável do país. Estudos feitos nos Estados Unidos atestam que produtos como milho, soja e algodão geneticamente modificados não trazem risco para o meio ambiente. Subitamente, porém, a Embrapa descobre que a fertilidade de grande parte dos solos cultivados está caindo - justamente onde estão as plantações transgênicas. Chega-se à conclusão, tardia, de que as novas proteínas produzidas pelos vegetais modificados alteraram as bactérias que fixam nitrogênio no solo. É uma catástrofe ambiental, que comprometerá gravemente a produção agrícola no país. O cenário acima não ocorreu, é apenas um exercício de ficção. Mas é uma ficção inteiramente verossímil, e mais do que isso, muito provável de converter-se em realidade. A polêmica estourou no mês de março, quando o tema foi debatido publicamente em Brasília, na comissão de defesa do consumidor da Câmara dos Deputados. Embora ainda sub judice, a decisão do governo brasileiro é de aprovar o cultivo de transgênicos que tenham sido aprovados por estudos de impacto ambiental feitos nos Estados Unidos.

Esta decisão é mais um capítulo do festival de imprevidência e desconhecimento que cerca o tema dos produtos transgênicos - não por acaso, transformado em tabu. Um sintoma claro da superficialidade com que o assunto é tratado é a situação em que o professor Sílvio Valle, da Fiocruz, se viu metido nos meios científico e político. Especialista em biossegurança e uma das autoridades nacionais no assunto, Valle tem encontrado cada vez mais interlocutores que o questionam por ser "contra" os transgênicos, e outros em mesmo número que rotulam-no como "a favor" dos transgênicos. Uma das missões a que o cientista se dedica atualmente é mostrar que genética não é Fla-Flu e iluminar o debate, antes que seja tarde. A futurologia sobre o esgotamento dos solos brasileiros por um efeito genético, por exemplo, já tem paralelos na realidade. Nos Estados Unidos, o milho transgênico "BT" havia sido aprovado pela rigorosa FDA (Food and Drug Administration), após estudos que comprovavam sua eficiência em provocar a morte da sua principal praga, uma lagarta onipresente na região do "corn belt". Algum tempo depois, porém, constatou-se que a população das borboletas "monarca", na mesma região, estava desaparecendo: o milho "BT" não era letal só para a praga a que estava destinado. O grau de risco se acentua com a transposição de estudos de impacto ambiental feito nos EUA para o Brasil. As diferenças do ambiente entre os dois países podem gerar efeitos inteiramente novos do transgênico sobre a natureza, alerta o professor Sílvio Valle.

Ele avisa que a discussão não comporta romantismo: "A população brasileira vai consumir transgênicos, não tenho dúvida disso". Mas ele quer mostrar que a segurança, nesse caso, será diretamente proporcional ao volume de pesquisa científica que se conseguir produzir sobre o assunto - e aí o placar ainda é totalmente favorável à ignorância. Não é difícil entender o grau de incerteza que cerca o tema. Modificar geneticamente uma planta significa que ela produzirá proteínas novas, desconhecidas anteriormente, e que podem ou não ser tóxicas. Podem ou não mudar o valor nutricional do alimento, causar alergias ou mesmo doenças degenerativas. Valle não tem nada de alarmista, mas neste ponto é franco: "Mesmo depois de todos os testes feitos e da aprovação dos produtos, é necessário que eles sejam devidamente rotulados e se iniciar a fase de biovigilância. Só com a população consumindo em massa é que se poderá ter as convicções sobre os seus efeitos." Se crianças consumidoras de leite de soja, por exemplo, apresentarem alergias novas, será fundamental saber se a soja era ou não transgênica (o que hoje é impossível, pois a soja transgênica que há no mercado é clandestina).

Ou seja, a quantidade de variáveis na relação entre os organismos modificados e o meio ambiente, os animais e o homem dá aos seus eventuais impactos algo de loteria. Em outras palavras, os primeiros consumidores de transgênicos, de certa forma, serão sempre cobaias. Mais grave, porém, é disseminar os produtos no mercado sem possibilidades de segregá-los e rastrear seus efeitos. Esse tempo já está sendo perdido. O mal da vaca louca, por exemplo, é, até onde se sabe, contraído de ração animal, mas seria fundamental distinguir o gado que consumiu ração transgênica para observar suas reações e sintomas. Nos Estados Unidos, o alarme soou quando detectou-se que estava havendo polinização cruzada entre o milho transgênico e o convencional - mostrando como a presença do organismo modificado na natureza pode escapar inteiramente ao controle do homem. Sívio Valle aponta o problema crucial e mais urgente na produção de conhecimento sobre transgênicos: a quase totalidade da pesquisa produzida até hoje foi realizada pelas próprias empresas vendedoras de produtos transgênicos. "Não há, no mundo todo, financiamento público para pesquisa científica sobre segurança alimentar de produtos transgênicos", acusa Valle. A SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) defende a taxação das empresas produtoras para financiar os estudos. Para Valle, bastaria que o governo passasse a exigir que as empresas, além dos testes sobre eficácia de seus produtos (para atestar que ele resiste a determinado agrotóxico, por exemplo), fossem obrigadas a fazer o estudo completo - sobre impacto no meio ambiente e na saúde.

Poderia ficar estabelecido então o seguinte: os produtos geneticamente modificados não são uma assombração, mas sua produção e consumo precisa ser acompanhada cientificamente em regime de pente-fino. O que é bom para o ambiente dos EUA pode não ser bom para o brasileiro, o que mata praga pode também matar borboleta, o que acontece com os animais não serve para determinar o efeito no organismo humano. Os alimentos já lançados passaram por testes de carcinogênese em cobaias, mas o pouco conhecimento sobre as novas proteínas produzidas não autoriza a exclusão de qualquer hipótese de efeito degenerativo. O professor Sílvio Valle está mostrando, portanto, que é preciso estudar exaustivamente cada circunstância de produção e consumo dos transgênicos. Porque genética não é Fla-Flu, mas é uma caixinha de surpresas.

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