Patentes, vacinas de combate ao câncer, coquetel
de drogas para o combate à AIDS, mais patentes, testes
genéticos, farmacogenômica, biossensores feitos
com DNA, clones e ainda patentes! Estas são as minhas
previsões científicas para o novo século.
Podem jogar os búzios!
Todos os dias, novas descobertas no campo da biologia
e da medicina são realizadas, e, se por vezes, tais
notícias nos fascinam, por outras nos assustam. É
fascinante imaginar que já tenhamos decodificado
praticamente todo nosso código genético. Com
a finalização do Projeto Genoma Humano, conheceremos
vários genes responsáveis por dezenas de doenças;
conheceremos os genes envolvidos na suscetibilidade de diversas
doenças complexas, como Alzheimer ou Esclerose Múltipla.
Mas não vou iludir ninguém. Conhecer o gene
responsável por uma determinada doença genética
ainda não significa que novos tratamentos serão
desenvolvidos a partir desta informação. Já
existe uma dezena de doenças nas quais os genes são
conhecidos e que, no entanto, permanecem sem tratamento.
Um bom exemplo é Adrenoleucodistrofia, retratada
no filme "Óleo de Lorenzo", onde os pais
de Lorenzo desenvolvem um óleo que supostamente seria
a cura para a doença. A verdade é bem diferente
do que se retratou no filme. O gene responsável por
Adrenoleucodistrofia foi descoberto há quase 8 anos
e até hoje não entendemos a doença,
não sabemos o que este gene faz e não fomos
capazes de desenvolver qualquer tratamento. E me parece
desnecessário comentar que o óleo também
não produz qualquer efeito comprovado.
Mas se pensarmos que a ciência evolui de modo exponencial
e que levaram menos de 50 anos desde a descoberta da molécula
de DNA por Watson e Crick até o desenvolvimento de
Dolly, o primeiro clone de um organismo superior, damo-nos
conta de que neste ritmo acelerado muito em breve teremos
tratamento para quase todas as doenças que hoje conhecemos.
E claro, teremos fatalmente novas doenças nas quais
nos ocuparmos. E teremos também inúmeras questões
éticas para resolver. Mas a despeito do que possam
dizer os mais céticos, o futuro já bate a
nossa porta. Agora só resta saber como o receberemos.
Falar de ciência, e principalmente de biologia e
medicina nos dias de hoje, exige muito mais do que simples
explanações sobre os procedimentos correntes
ou relatos deslumbrados sobre as maravilhas da mesma. Para
se realizar uma análise realista é necessário
um olhar muito mais cuidadoso, que atravessa o isolamento
dos laboratórios de pesquisa, indo ao mais fundo
de nossa sociedade, porque mais do que nunca a ciência,
hoje, ocupa um lugar especial e delicado em nossa sociedade,
antes reservado principalmente à tecnologia. Quantas
vezes uma descoberta inocente ou o desenvolvimento de uma
nova tecnologia não se transformaram, anos mais tarde,
em uma ameaça em potencial à nossa existência?
Não pode haver melhor exemplo do que a radioatividade.
Madame Couri jamais poderia prever que sua descoberta seria
o primeiro passo para o desenvolvimento da bomba atômica.
E aqueles que realmente desenvolveram a bomba atômica...
Será que poderiam imaginar que um dia sua invenção
iria "iluminar" os céus do Japão?
E ainda assim é importante frisar que sem a radioatividade
jamais teríamos chegado ao ponto em que chegamos.
Somos absolutamente dependentes. Até mesmo para um
simples tratamento de canal.
E é no casamento entre biologia e tecnologia que
nasce a biotecnologia, e com ela se abre um mundo de novas
possibilidades. E também a esperança de que
todas as nossas mazelas terão um fim. E assim, como
uma nova tecnologia que é introduzida em nossa sociedade,
a biotecnologia também abre um novo espectro repleto
de questões éticas e dilemas de ordem social
ainda por serem resolvidas. Questões estas que não
podem ser ignoradas porque hoje entendemos muito melhor
do que somos como seres humanos, tanto do ponto de vista
benéfico como maléfico. Hoje temos consciência
de nossa possível estupidez e premeditamos o futuro
de nossa sociedade a partir da análise num passado
não muito distante. E é exatamente por isso
que as questões de ordem ética e social devem
ser discutidas e respondidas, e novas leis devem ser criadas,
mais do que nunca, porque necessitamos da ciência,
necessitamos de novos tratamentos e de novas drogas. Desejamos
banir o câncer, a AIDS, e tantas outras doenças
das quais somos vítimas, mas para isso precisamos
produzir uma resposta "imunológica" a todo
este desenvolvimento científico, para que não
nos tornemos vítimas de nossas próprias criações,
e para que ao mesmo tempo a ciência possa percorrer
os caminhos necessários, respeitando e reconhecendo
sempre os limites daquilo que realmente não pode
ser ultrapassado.
É importante entendermos, por exemplo, que muitas
vezes o novo ou o inusitado podem gerar uma reação
inicial de mal-estar e desconforto, que surge quando os
limites de nossa "humanitude" parecem atingidos.
Este mal-estar, chamado por muitos bioéticos de "efeito
urghh!", representa exatamente a fronteira dos limites
daquilo que não parece natural, correto ou mesmo
humano. Foi assim com a fertilização in vitro
30 anos atrás. No entanto, poucas gerações
foram suficientes para que esta técnica se tornasse
aceita em nossa sociedade, de um modo geral. O mesmo tem
acontecido com a clonagem de organismos superiores. A maioria
das pessoas encara o tema de maneira desconfiada e relutante.
Quando Dolly surgiu em 1997, minha mãe me ligou nervosa
e ficou repetindo a estória do filme "Meninos
do Brasil". E me perguntava aflita: "Será
que eles vão criar cópias de um exército
superpoderoso? Ou cópias do super-homem?".
A despeito das diversas reações que a prática
de clonagem possa ocasionar em muitas pessoas, esta técnica
pode trazer vários benefícios. Vou citar alguns
exemplos. A técnica de clonagem já está
sendo utilizada para se "produzir" animais ameaçados
de extinção, cuja reprodução
por vias "normais" é bastante delicada.
Animais como o Panda Gigante poderão ser "produzidos"
através da técnica de clonagem. Claro que
ainda existem muitas questões a serem resolvidas,
principalmente no que diz respeito a como manter a diversidade
destas populações que seriam produzidas através
da clonagem. No entanto, estas questões só
existem porque estes animais serão possíveis.
Sem tal tecnologia muitas espécies simplesmente desaparecerão
de nosso planeta. A clonagem para muitos destes animais
representa a última chance de sobrevivência.
Um outro exemplo está no grupo de pesquisadores
da Universidade do Hawai, que junto com um grupo da Rockfeller
University, produziram 6 gerações de camundongos
por clonagem. O objetivo deste projeto estava em se estudar
os telômeros que representam as extremidades dos cromossomos.
Já se sabia que estas extremidades vão encurtando
ao longo das tantas divisões celulares às
quais nossas células são submetidas ao longo
de nossas vidas, até ficarem tão curtas que
se tornam inviáveis. Este processo de encurtamento
dos telômeros está associado ao envelhecimento
de nossas células e ao envelhecimento de nosso organismo
de um modo geral. Este é um processo normal, responsável
pela morte das células. No entanto, em células
cancerosas, este encurtamento dos telômeros não
ocorre e, desse modo, as células nunca morrem. Daí
o crescimento celular descontrolado e a formação
do tumor, que nada mais é que um amontoado de células.
O resultado que os pesquisadores da Universidade do Hawai
encontraram foi bem diferente daquele esperado. Ao contrário
do que ocorreu com a ovelha Dolly, que já nasceu
velha demais exatamente porque os telômeros de seus
cromossomos já estavam curtos demais, estes camundongos
apresentaram um alongamento em seus telômeros, ao
invés do esperado encurtamento. O significado deste
resultado ainda não é claro, mas importantes
revelações sobre o processo de encurtamento
de nossos telômeros podem ser adquiridas através
de experimentos como este. E podemos também adquirir
novas informações a respeito do processo molecular
em células cancerosas
O que pretendo mostrar com estes exemplos é que
a ciência tem se apresentado como faca de dois gumes.
Se por um lado presenciamos avanços inimagináveis,
por outro tememos que nos tornemos vítimas de nossa
própria criação. Parece que para desfrutarmos
do progresso da ciência teremos que ter pesadelos
constantes onde um exército de super-homens, todos
iguaizinhos, invade nossos sonhos destruindo nossa promessa
de felicidade. Será que devemos então comunicar
a todas as pessoas que sofrem de câncer, de AIDS e
de tantas outras doenças que os desenvolvimentos
na área de biotecnologia irão ser interrompidos
porque um dia eles poderão ser utilizados em nosso
detrimento? Por que algum dia alguém poderá
infestar uma estação de metrô com uma
bactéria letal, produzida em laboratório?
Na maioria das vezes o resultado obtido a partir da pesquisa
científica não pode ser antecipado, e a lógica
humana não é capaz de traçar os caminhos
a serem percorridos, porque o futuro é algo que desconhecemos.
Assim a ciência traça seu próprio caminho
e assim tem sido ao longo dos séculos. Deste modo
é fundamental que estejamos todos muito atentos.
É fundamental que a sociedade seja educada e conheça
os reais riscos e opções que a ciência
dos dias de hoje, e também dos dias de amanhã,
oferecerá, porque o estado democrático não
se limita somente à liberdade de escolha, mas também
à educação e preparação
dos cidadãos de modo que os mesmos possam executar
este direito de modo consciente.
O futuro da ciência bate a nossa porta e ainda assim
não podemos prevê-lo. Mas o futuro de nossa
sociedade está em nossas mãos.