Como será o amanhã?
Marcia L Triunfol - Dezembro de 2000
 

Patentes, vacinas de combate ao câncer, coquetel de drogas para o combate à AIDS, mais patentes, testes genéticos, farmacogenômica, biossensores feitos com DNA, clones e ainda patentes! Estas são as minhas previsões científicas para o novo século. Podem jogar os búzios!

Todos os dias, novas descobertas no campo da biologia e da medicina são realizadas, e, se por vezes, tais notícias nos fascinam, por outras nos assustam. É fascinante imaginar que já tenhamos decodificado praticamente todo nosso código genético. Com a finalização do Projeto Genoma Humano, conheceremos vários genes responsáveis por dezenas de doenças; conheceremos os genes envolvidos na suscetibilidade de diversas doenças complexas, como Alzheimer ou Esclerose Múltipla. Mas não vou iludir ninguém. Conhecer o gene responsável por uma determinada doença genética ainda não significa que novos tratamentos serão desenvolvidos a partir desta informação. Já existe uma dezena de doenças nas quais os genes são conhecidos e que, no entanto, permanecem sem tratamento. Um bom exemplo é Adrenoleucodistrofia, retratada no filme "Óleo de Lorenzo", onde os pais de Lorenzo desenvolvem um óleo que supostamente seria a cura para a doença. A verdade é bem diferente do que se retratou no filme. O gene responsável por Adrenoleucodistrofia foi descoberto há quase 8 anos e até hoje não entendemos a doença, não sabemos o que este gene faz e não fomos capazes de desenvolver qualquer tratamento. E me parece desnecessário comentar que o óleo também não produz qualquer efeito comprovado.

Mas se pensarmos que a ciência evolui de modo exponencial e que levaram menos de 50 anos desde a descoberta da molécula de DNA por Watson e Crick até o desenvolvimento de Dolly, o primeiro clone de um organismo superior, damo-nos conta de que neste ritmo acelerado muito em breve teremos tratamento para quase todas as doenças que hoje conhecemos. E claro, teremos fatalmente novas doenças nas quais nos ocuparmos. E teremos também inúmeras questões éticas para resolver. Mas a despeito do que possam dizer os mais céticos, o futuro já bate a nossa porta. Agora só resta saber como o receberemos.

Falar de ciência, e principalmente de biologia e medicina nos dias de hoje, exige muito mais do que simples explanações sobre os procedimentos correntes ou relatos deslumbrados sobre as maravilhas da mesma. Para se realizar uma análise realista é necessário um olhar muito mais cuidadoso, que atravessa o isolamento dos laboratórios de pesquisa, indo ao mais fundo de nossa sociedade, porque mais do que nunca a ciência, hoje, ocupa um lugar especial e delicado em nossa sociedade, antes reservado principalmente à tecnologia. Quantas vezes uma descoberta inocente ou o desenvolvimento de uma nova tecnologia não se transformaram, anos mais tarde, em uma ameaça em potencial à nossa existência? Não pode haver melhor exemplo do que a radioatividade. Madame Couri jamais poderia prever que sua descoberta seria o primeiro passo para o desenvolvimento da bomba atômica. E aqueles que realmente desenvolveram a bomba atômica... Será que poderiam imaginar que um dia sua invenção iria "iluminar" os céus do Japão? E ainda assim é importante frisar que sem a radioatividade jamais teríamos chegado ao ponto em que chegamos. Somos absolutamente dependentes. Até mesmo para um simples tratamento de canal.

E é no casamento entre biologia e tecnologia que nasce a biotecnologia, e com ela se abre um mundo de novas possibilidades. E também a esperança de que todas as nossas mazelas terão um fim. E assim, como uma nova tecnologia que é introduzida em nossa sociedade, a biotecnologia também abre um novo espectro repleto de questões éticas e dilemas de ordem social ainda por serem resolvidas. Questões estas que não podem ser ignoradas porque hoje entendemos muito melhor do que somos como seres humanos, tanto do ponto de vista benéfico como maléfico. Hoje temos consciência de nossa possível estupidez e premeditamos o futuro de nossa sociedade a partir da análise num passado não muito distante. E é exatamente por isso que as questões de ordem ética e social devem ser discutidas e respondidas, e novas leis devem ser criadas, mais do que nunca, porque necessitamos da ciência, necessitamos de novos tratamentos e de novas drogas. Desejamos banir o câncer, a AIDS, e tantas outras doenças das quais somos vítimas, mas para isso precisamos produzir uma resposta "imunológica" a todo este desenvolvimento científico, para que não nos tornemos vítimas de nossas próprias criações, e para que ao mesmo tempo a ciência possa percorrer os caminhos necessários, respeitando e reconhecendo sempre os limites daquilo que realmente não pode ser ultrapassado.

É importante entendermos, por exemplo, que muitas vezes o novo ou o inusitado podem gerar uma reação inicial de mal-estar e desconforto, que surge quando os limites de nossa "humanitude" parecem atingidos. Este mal-estar, chamado por muitos bioéticos de "efeito urghh!", representa exatamente a fronteira dos limites daquilo que não parece natural, correto ou mesmo humano. Foi assim com a fertilização in vitro 30 anos atrás. No entanto, poucas gerações foram suficientes para que esta técnica se tornasse aceita em nossa sociedade, de um modo geral. O mesmo tem acontecido com a clonagem de organismos superiores. A maioria das pessoas encara o tema de maneira desconfiada e relutante. Quando Dolly surgiu em 1997, minha mãe me ligou nervosa e ficou repetindo a estória do filme "Meninos do Brasil". E me perguntava aflita: "Será que eles vão criar cópias de um exército superpoderoso? Ou cópias do super-homem?".

A despeito das diversas reações que a prática de clonagem possa ocasionar em muitas pessoas, esta técnica pode trazer vários benefícios. Vou citar alguns exemplos. A técnica de clonagem já está sendo utilizada para se "produzir" animais ameaçados de extinção, cuja reprodução por vias "normais" é bastante delicada. Animais como o Panda Gigante poderão ser "produzidos" através da técnica de clonagem. Claro que ainda existem muitas questões a serem resolvidas, principalmente no que diz respeito a como manter a diversidade destas populações que seriam produzidas através da clonagem. No entanto, estas questões só existem porque estes animais serão possíveis. Sem tal tecnologia muitas espécies simplesmente desaparecerão de nosso planeta. A clonagem para muitos destes animais representa a última chance de sobrevivência.

Um outro exemplo está no grupo de pesquisadores da Universidade do Hawai, que junto com um grupo da Rockfeller University, produziram 6 gerações de camundongos por clonagem. O objetivo deste projeto estava em se estudar os telômeros que representam as extremidades dos cromossomos. Já se sabia que estas extremidades vão encurtando ao longo das tantas divisões celulares às quais nossas células são submetidas ao longo de nossas vidas, até ficarem tão curtas que se tornam inviáveis. Este processo de encurtamento dos telômeros está associado ao envelhecimento de nossas células e ao envelhecimento de nosso organismo de um modo geral. Este é um processo normal, responsável pela morte das células. No entanto, em células cancerosas, este encurtamento dos telômeros não ocorre e, desse modo, as células nunca morrem. Daí o crescimento celular descontrolado e a formação do tumor, que nada mais é que um amontoado de células. O resultado que os pesquisadores da Universidade do Hawai encontraram foi bem diferente daquele esperado. Ao contrário do que ocorreu com a ovelha Dolly, que já nasceu velha demais exatamente porque os telômeros de seus cromossomos já estavam curtos demais, estes camundongos apresentaram um alongamento em seus telômeros, ao invés do esperado encurtamento. O significado deste resultado ainda não é claro, mas importantes revelações sobre o processo de encurtamento de nossos telômeros podem ser adquiridas através de experimentos como este. E podemos também adquirir novas informações a respeito do processo molecular em células cancerosas

O que pretendo mostrar com estes exemplos é que a ciência tem se apresentado como faca de dois gumes. Se por um lado presenciamos avanços inimagináveis, por outro tememos que nos tornemos vítimas de nossa própria criação. Parece que para desfrutarmos do progresso da ciência teremos que ter pesadelos constantes onde um exército de super-homens, todos iguaizinhos, invade nossos sonhos destruindo nossa promessa de felicidade. Será que devemos então comunicar a todas as pessoas que sofrem de câncer, de AIDS e de tantas outras doenças que os desenvolvimentos na área de biotecnologia irão ser interrompidos porque um dia eles poderão ser utilizados em nosso detrimento? Por que algum dia alguém poderá infestar uma estação de metrô com uma bactéria letal, produzida em laboratório?

Na maioria das vezes o resultado obtido a partir da pesquisa científica não pode ser antecipado, e a lógica humana não é capaz de traçar os caminhos a serem percorridos, porque o futuro é algo que desconhecemos. Assim a ciência traça seu próprio caminho e assim tem sido ao longo dos séculos. Deste modo é fundamental que estejamos todos muito atentos. É fundamental que a sociedade seja educada e conheça os reais riscos e opções que a ciência dos dias de hoje, e também dos dias de amanhã, oferecerá, porque o estado democrático não se limita somente à liberdade de escolha, mas também à educação e preparação dos cidadãos de modo que os mesmos possam executar este direito de modo consciente.

O futuro da ciência bate a nossa porta e ainda assim não podemos prevê-lo. Mas o futuro de nossa sociedade está em nossas mãos.

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